ARBORIZAÇÃO URBANA & QUALIDADE DE VIDA

Goiânia, 25/10/2007 - quinta-feira –  edição nº 7.293 – página 8 – Mundo; 1º/11/2007 - quinta-feira –  edição nº 7.300; e 09/11/2007 - sexta-feira – 7308, ambas na página 13 – Cidades

 

 

ARBORIZAÇÃO URBANA &

QUALIDADE DE VIDA (I, II e III),

por Osmar Pires Martins Júnior*

 

 

                               O fenômeno do aquecimento global coloca as questões da ecologia e do meio ambiente no centro do debate internacional. Os meios de comunicação inserem na pauta diária da grande mídia os problemas relacionados à poluição e ao desmatamento. Os cidadãos recebem informações atordoantes sobre o derretimento das calotas polares, prolongamento da estiagem, inundações, furacões e outros fenômenos meteorológicos que estariam relacionados ao desequilíbrio climático. Tudo se deveria ao efeito estufa, isto é, o aumento da temperatura da atmosfera, provocado pelo acúmulo de gases poluentes que são lançados pelas atividades humanas.

Parte I. O aquecimento global e as cidades

                              Até bem pouco tempo, no meio científico, não havia unanimidade a respeito da mudança climática pela qual nosso planeta enfrenta desde a última década do século passado. Não se poderia creditar apenas ao homem a responsabilidade por um fenômeno que estaria realcionado a causas geológicas, da circulação atmosférica, do movimento planetário e cósmico, que se manifestariam ciclicamente, em períodos de alta e de baixa temperatura. E mais, que a tecnologia humana seria capaz de controlar as atividades industriais e de uso do solo, de maneira a proporcionar apenas os efeitos positivos do crescimento econômico. Pensar diferente, argumentavam os defensores das causas naturais do efeito estufa, seria admitir a tese do crescimento zero ou até negativo. E isso seria inaceitável, frente ao desafio da oferta de empregos e alimentos para uma população em crescimento contínuo.

                             Passados mais de três décadas após a Conferência da ONU sobre Desenvolvimento Humano, em Estocolmo – marco inicial dessa discussão –  os cientistas de todo o mundo, reunidos no Painel Intergovernamental de Controle do Clima, apontam de maneira quase unânime para as causas humanas do efeito estufa: a atividade industrial consumidora de energia a base de petróleo, sobretudo nos países ricos; e, o uso do solo, por meio do desmatamento sem controle e em ritmo intenso, sobretudo nos países em desenvolvimento. Feito o diagnóstico, aponta-se o prognóstico: adoção de energia alternativa ao petróleo, por intermédio de uma matriz energética à base de fontes limpas e renováveis, que não lançem gases poluidores, causadores do efeito estufa; e o controle do uso do solo rural, com técnicas e práticas agrícolas sustentáveis, capazes de preservar a biodiversidade e as florestas, que são os sumidouros ou absorvedores de gas carbônico, um dos principais caudadores do efeito estufa.

                             A humanidade avançou, portanto, na compreensão do problema. Mas precisamos avançar mais. Destacaria dois pontos, dentre tantos outros: um, a falsa dicotomia entre países membros (os industrializados) e não membros (os não industrializados) do chamado Anexo I do Protocolo de Kyoto. Ora, todos são poluidores. Esta segmentação estanque nos parece uma reprodução ideológica da forma como a questão era colocada nos anos 1970. A adoção de medidas de controle e de imposição de limites de lançamento de gases poluidores aos países em desenvolvimento provocaria um efeito de distribuição de renda interna nestes países, tal como se verifica entre os países membros e não membros do Anexo I, por via de projetos de Mecanismos de Desenvolvimento Limpo.

                              Outro ponto a ser destacado é quanto ao efeito estufa no meio urbano. Trata-se de uma grande lacuna no debate sobre o tema. Neste aspecto, os espaços livres e as áreas verdes urbanas jogam papel destacado no controle da poluição e na melhoria do microclima urbano. E isso é importante se considerarmos que metade da população mundial e oitenta por cento da população brasileira vivem nas cidades. A esse respeito, falaremos no próximo artigo.

Parte II. Os espaços livres e a qualidade de vida urbana

A compreensão acerca da questão urbana e sua relação com a melhoria da qualidade de vida pode contribuir no debate atual sobre as mudanças climáticas e o efeito estufa. As cidades ocupam um espaço relativamente pequeno, no qual predominam materiais construtivos que absorvem e armazenam radiação durante o dia e liberam-na à noite. As cidades possuem elevadas concentrações demográfica e de atividade humana. É intensa a produção artificial de calor, causando mudança climática não só meio interno, mas também extra-urbano. Um exemplo é o das maiores cidades norte-americanas que, no inverno, emitem calor numa escala de valores da mesma magnitude que as fontes naturais, em comparação com a radiação solar líquida na superfície da terra.

Nas cidades, a cobertura natural do solo é substituída por edificações de materiais os mais diversos. A conseqüência disso é alteração radical do balanço da energia das ondas emitidas pelo sol e pelo solo. São alterados os estados de todos os parâmetros atmosféricos - cujo conjunto representa o clima. Já no meio rural ou natural, o balanço da radiação é formado pelo equilíbrio entre as ondas curtas provenientes do sol e as ondas longas que são refletidas pelo pelo solo, água e vegetação. A cobertura vegetal do solo contribui para a manutenção deste equilíbrio. No meio urbano, sobretudo, nas regiões populosas, com o desaparecimento da vegetação, quebra-se o equilíbrio. Em decorrência, o balanço de radiação tende a apresentar prevalência de ondas longas, refletidas pelos materiais construtivos, aquecendo a cidade. Por seu turno, as florestas e as superfícies cobertas por água possuem elevada capacidade de absorção, refletindo muito pouco a luz do sol, atuando, assim, na refrigeração e umidificação do meio.

Por isso, regiões cercadas por muita água ou com grandes massas vegetais, transpirando livremente e umidificando a atmosfera, apresentam clima mais estável: nem o verão é muito quente, nem o inverno é muito frio. Para o clima urbano, cada hectare (dez mil m²) de bosque preservado pode produzir até 53 mil litros de água por dia, exercendo o efeito das brisas térmicas que sopram entre os ambientes de maior e de menor temperatura, renovando o ar, refrigerando e umidificando o ambiente. Os ambientes urbanos que mantêm superfícies cobertas por massas de vegetação com o ar carregado de umidade possuem um diferencial, chamado regulador térmico, que absorve tanto a radiação solar de ondas curtas como as terrestres de ondas longas.

Além do efeito positivo sobre o clima, a arborização urbana contribui para o controle da poluição atmosférica, reduzindo os níveis de poluição acústica, absorvendo e dispersando a fumaça e poeira, filtrando as partículas em suspensão, além de eliminar muitos poluentes atmosféricos, enfim, melhorando a qualidade do ar. Esse efeito de biofiltração é da ordem de 18 a180 kg de poluentes por árvore por ano. O trabalho gratuito de cada árvore representa um valor anual de R$ 10,00 por pessoa. Para um bairro com 23% do solo coberto por vegetação, a partir de 212 hectares de área, esse benefício diário é de R$ 400,00.

                               Pelos motivos expostos, alguns Poderes Locais estão levando em conta a paisagem e arborização no planejamento e na gestão urbana. Os espaços públicos são articulados às áreas particulares que são destinadas ao comércio, à indústria e à moradia. Não se trata de privatizar o espaço público, mas de valorar a função social e ambiental da propriedade particular. Vários são os exemplos de cidades, como Stuttgart, na Alemanha e Dayton, nos EUA, que desenvolveram essa política e hoje colhem os frutos com a melhoria da qualidade de vida de seus moradores. Cabe ao Município, através das Prefeituras, a responsabilidade pelo desenvolvimento dessa estratégia de gestão urbana, para a qual, Goiânia possui um enorme potencial. A respeito, discorreremos no próximo artigo.

Parte III. Monitoramento e gestão ambiental

                               A cidade de Goiânia possui um rico e diversificado patrimônio ambiental. É o que foi levantado na pesquisa que o autor destas linhas desenvolveu e aprovou no Programa de Mestrado em Ecologia da UFG. Esse patrimônio é constituído por 116,3 milhões de m² de Espaços Livres e Áreas Verdes, assim compreendido: 3,3 milhões de m² de praça; 13,7 milhões de m² de parque; 14,6 milhões de m² de parque linear; 2,8 milhões de m² de verde de acompanhamento viário; 3,4 milhões de m² de espaço livre público; 56,0 milhões de m² de área verde particular; 20,2 milhões de m² de equipamento público; e 1,8 milhões de m² de jardim de representação.

                               O levantamento citado está disponibilizado à Agência Municipal do Meio Ambiente (AMMA) para inserção no Mapa Urbano Básico Digital de Goiânia (MUBDG), da Cia. de Processamento de Dados do Município (COMDATA). Conforme salienta Flávio Yuaca, gerente de Geoprocessamento desta última, o “Sistema de Informação Geográfica de Goiânia (SIGGO) contém um banco de dados espacial com bairros, quadras, lotes, hidrografia, escolas, postos de saúde e outras informações” e que, continua o especialista da COMDATA, “a incorporação dos dados ambientais possibilita um Sistema de Informação Geográfica voltado para o gerenciamento, planejamento, controle, preservação e divulgação do patrimônio ambiental de Goiânia”.

                                A extensa base inicial de dados ambientais - levantada na pesquisa citada - está materializada em trinta e dois mapas, gerados a partir de um mapa índice com mais de 12.400 polígonos que representam todas as categorias de espaços livres das zonas urbana e de expansão urbana. Este conjunto de informações, integrado ao sistema de informação de Goiânia, que é dotado de mapas georreferenciados e integrados entre si, a partir de coordenadas UTM (SAD69), permite o fornecimento de informações detalhadas, de maneira ímpar, frente à realidade dos demais municípios brasileiros.

                                O especialista em Geoprocessamento da COMDATA e a gerente de Áreas Verdes da AMMA, bióloga Mariana Nascimento Siqueira, destacam a importância de se complementar esta base inicial de dados e de integrá-la às demais camadas de informação do SIGGO, além de disponibilizá-la aos profissionais da iniciativa pública e privada e à comunidade em geral. O grande desafio, afirmam os técnicos citados, é fazer com este banco de dados seja incorporado aos procedimentos cotidianos dos agentes públicos e privados na produção do espaço urbano, de maneira integrada, que respeite e potencialize os efeitos positivos do patrimônio urbano no uso e ocupação do solo.

                                O desenvolvimento sustentável é um termo moderno de aceitação universável, mas de difícil implementação, pois exige, muitas vezes, meios e instrumentos não tão acessíveis. No caso em foco, a cidade de Goiânia dispõe de um rico e diversificado patrimônio urbanístico-natural que, aliado ao sistema integrado de informação, aqui comentado, constituem-se no objeto e ferramenta de gestão racional do território. Cabe agora aos diversos segmentos da nossa sociedade aceitar e vencer o desafio de um futuro equilibrado, no seu tríplice aspecto, ambiental, econômico e social.

 


* Osmar Pires Martins Júnior é professor universitário, biólogo, engenheiro agrônomo, mestre em Ecologia, foi presidente da Agência Goiana do Meio Ambiente (2003-06), Perito Ambiental do MP/GO (1997-02) e secretário do Meio Ambiente de Goiânia (1993-96).

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